Como devem calcular, com o estágio resta-me bastante menos tempo para ir actualizando este blogue, mas não desistam que de vez em quando cá apareço !
Antes de mais - isto é, de contar como está a correr - deixem me explicar como sucedeu esta revira volta.
Há algumas semanas atrás conheci um húngaro que, pelo meio da conversa, me conta que estava a trabalhar no Shigeru Ban. Ao ouvir este nome os meus olhos provavelmente rebrilharam e disse "ah que giro, para trabalhar cá seria um dos ateliers que me interessaria".
Dito e feito, passados dois dias (terça feira) tinha um mail do húngaro (apresentando-o: Mathyas) a dizer que já tinha falado com a pessoa responsável dos estágios e que eu deveria enviar para lá o meu currículo e portfolio.
Como nessa altura ainda não tinha o portfolio feito, e depois de falar com o Mathyas, pensei que o melhor seria mandar só o currículo por enquanto, e mais tarde, pensava eu, enviaria o portfolio.
Na quinta feira então, com nervos na barriga, enviei um mail com o currículo e uma pequena apresentação, candidatando-me a um estágio por seis meses, em part-time.
Eis o meu espanto quando, passadas DUAS HORAS tinha entrevista marcada para a segunda feira seguinte, já com o portfolio. Isto é que é eficiência japonesa....
Eficiência essa que tive de aplicar para montar o portfolio ! Para quem já teve a experiência de fazer o portfolio, fazê-lo em 2 dias, com visitas e passeios à mistura, não é propriamente evidente.
Mas de alguma forma (e muito a pontapé) consegui compilar os trabalhos de maneira minimamente apresentável. Confesso que, para ter uma referência, tinha previamente visto os portfolios dos alunos japoneses, que eram mais trabalhados que o meu, certo, mas de grafismo relativamente simples, exemplo que eu fiz questão de seguir...
De portfolio em mão, dentro de um saquinho que fiz de propósito para a ocasião, cheguei ao atelier.
Não imaginam o meu espanto quando, antes mesmo de abrir o portfolio, já se falava em horários de trabalho, como funcionava o atelier, o que aqui fazia ... e tudo isto já com o papel "bemvindo ao atelier" em cima da mesa.
Obviamente que depois de tudo isto, com a maior das confianças apresentei o meu portfolio, independentemente da sua qualidade, seguindo o conselho da minha querida irmã "mostra que és um máximo", mas também não esquecendo o cerimonial e humildade japonesa... que diplomacia!
E assim foi. Ao acabar de apresentar o projecto e de duas perguntas genéricas sobre o meu trabalho, chegou a grande questão:
"when can you start working?"
Não sonham o sorrisão que tive de conter ... Com os olhos a brilharem pelo que não podia sorrir, fui apresentada ao staff...
Como já me tinha sido dito, o trabalho de estagiário é essencialmente fazer maquetes e alguns desenhos. Quem me conhece deve estar neste momento a ter a mesma reacção que tive ao sair da entrevista "acabei de ser contratada para 6 meses de maquetes que não sei fazer !!!!" Para os leigos, e especialmente a minha querida família, as minhas maquetes até podem ser engraçadas, mas quem trabalhou comigo bem sabe como as faço ... hihi
Estando combinado que às terças não trabalho para estudar, na quarta feira apresentei-me então ao serviço. O ambiente bastante relaxado a esta hora, com ainda a maior parte do staff a chegar. Outro estagiário, americano, ofereceu-me logo um café (americano) e dizia "Portugal ... yeahh... how nice...", apesar de horas depois me perguntar factos sobre Portugal, pois não sabia rigorosamente nada sobre este nosso país.
Vou vos poupar a descrição hora a hora da minha estadia no atelier, mas sim dar umas luzes sobre o que lá se passa. Peço desculpa se é informação relevante sobretudo para arquitectos, mas ainda se descobrem uns factos interessantes sobre a cultura japonesa:
- é um atelier surpreendentemente pequeno para o trabalho que tem. É verdade que tem mais um atelier em Paris e outro associado em Nova Iorque (que chatice...) mas para atelier-base, contei uns 12 arquitectos fixos e 6 estagiários. O segredo parece-me ser este : cada Japonês vale por 2 ocidentais !!
Por mais que vida de arquitecto seja difícil, eles aqui ultrapassam tudo. O horário
normal é das 10 da manhã à 1 da manhã, senão mais. Chega à hora de jantar e, naturalmente, vão todos - e eu inclusive - buscar o "bentô", refeição pré-cozinhada, sentam-se na sala de reunião e meia hora depois já está tudo outra vez em frente ao computador, como se almoço fosse.
O que vale é que como estagiária, só em caso de aperto maior de trabalho terei de ficar até tão tarde (se bem que até agora houve sempre apertos de trabalho e reuniões marcadas para as 11 da noite...). E tenho ainda um bónus: como vivo longe têm pena de mim e mandam me para casa ... de facto ainda não tinha dito isto, mas demoro hora e meia a lá chegar, mas pelo menos pagam-me os transportes !
- apesar da intensidade do trabalho, o ambiente é bastante simpático, para uma estrangeira: todos os "staff" são obrigados a ter um bom nível de inglês e os estagiários são todos estrangeiros, dos quais se contam até agora : americano, neozelandês, indiano, japonesa/alemã e o famoso húngaro. E para além da língua, tanto staff como estagiários parecem bem dispostos, abertos e divertidos.
- vou mudar a expressão "trabalho de chinês" para "trabalho de japonês", porque não sonham a perfeição do trabalho ... e a paciência. Noutro post - este já vai longo demais ! - conto como é o meu "colega" japonês... mas para ficarem com uma ideia, aqui tudo tem técnica, começando pela maneira de agarrar no x-acto, como se fossem pauzinhos! E de facto funciona... se eu soubesse isto 5 anos atrás ! Mas como pauzinhos não temos, pode-se dizer que eles vão com alguns passos de avanço....
- para quem duvida da validade de um estágio de maquetista /desenhista, digo que neste caso até tenho muita sorte, porque os estagiários ainda podem participar minimamente no processo criativo, porque são nos postos problemas e temos de resolver ... em maquete. Somos também convidados a assistir às reuniões de projecto com o próprio Shigeru Ban, e é engraçado ver como se desenvolve todo o processo: ele à cabeceira, o braço direito do lado direito, o chefe de projecto do lado esquerdo, as associados, e lá bem no fundo da mesa ... eu, a estagiária. hehe Mas ainda assim tomo a liberdade de me levantar ligeiramente e ver os desenhos e apontamentos sobre as maquetes. Isto sim, são aulas.
Resumindo, e concluindo, estes poucos dias anunciam um estágio duro, cheio de trabalho, mas onde certamente hei de aprender bastante, em experiência, em arquitectura, em estaleca e, acima de tudo, em perfeição nas maquetes !!!
Como prova... a porta do atelier
E a carteira do portfolio...! Aos interessados, posso comercializar o modelo !! 