quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
O João no Japão
Pedi ao João para escrever um pequeno post sobre a vinda dele ao Japão.
Eis o resultado. Enjoy!
nota prévia: o João, em * escreveu: "*Vou manter uma cópia do original na eventualidade deste artigo não ver a luz do dia. Afinal de contas se fosse o meu blog, era no mínimo exigente, mas de facto a carne é fraca e da exigência à censura vai apenas uma estreita distância."
Ora, como eu sou extremamente clemente e generosa, publico aqui por inteiro o que escreveu. Apenas corrigi os nomes dos lugares. Acreditem que não acertou em muitos .... Mas eu sei que estava atento na mesma ! ;)
Viagem ao Japão
A Maria fez-me um pedido ousado que muito me honra “tentar exprimir o que foi o meu choque com a cultura japonesa”. O objectivo será incorporá-lo no seu blog, por isso antes de começar “obrigado Maria, pelo voto de confiança”*.
Em viagem ou em trabalho lá fora, gosto especialmente de observar os costumes e aparências dos estrangeiros. Trata-se de sentir as diferenças. É muito interessante tirar algumas conclusões sem no entanto, cair no erro de generalizar ou estereotipar demasiado.
É simples perceber que uma história bem contada, apesar de menos credível, é mais apelativa com tiradas do género “lá eles são todos assim…” ou “lá eles falam todos assado…” porque o contrário pode revelar que das duas uma:
1. Não se prestou atenção nenhuma (estava-se sempre a olhar para a namorada, ou cansado e com vontade de dormir).
2. Não se sabe contar histórias (o que é gravíssimo com o tipo de responsabilidade que me deram).
Apesar das razões expostas, vou tentar ser o mais realista possível, se bem que o exagero e a metáfora, são desde tenra idade, aqueles recursos que mais gosto de usar. Receio já não saber contar histórias de outra forma.
Vou concentrar-me sobretudo nos choques culturais.
É importante salientar que por vontade da Maria, e com muito agrado meu, tive oportunidade de me dar com os diversos grupos em que estava inserida. Assim consegui perceber melhor o que estava a viver, e quem eram as pessoas do seu dia-a-dia nesta importante fase da sua vida.
O itinerário foi cuidadosamente escolhido, e não houve momentos mal aproveitados.
Tokyo
Cidade fervilhante de luz. Quando a Maria me disse “a luz nas ruas dos bairros mais animados é incrível” eu pensava, que não iria ser mais do que Times Square ou Picadilly, mas são múltiplos e intermináveis “Times Square’s” que se sucedem. Tokyo tem seguramente um consumo muito… (veia do exagero a palpitar) grande, recorrendo ao exemplo dos americanos, que medem sempre as escalas em “estádios” em vez de “Watts” ou “Volts” ou de “metros” que Tokyo deveria ter energia para alimentar 4.565.456.890.223 estádios de futebol.
A agitação que se vê nas ruas, vale a pena mencionar. Noutro capítulo deste fabuloso blog, estão umas filmagens do cruzamento de Shibuya. São bem elucidativas. Quando os carros param e o sinal verde para peões acende, a sensação que se experimenta (acentuado se se conseguir ir à frente do pelotão), é autêntica àquela ordem vociferada do comandante “ATACAAAAR!!!” que despoleta uma massa compacta de pessoas a arrancar ao mesmo tempo do seu pólo e avançar implacavelmente como a corrida que antecede o confronto de exércitos.
Andar em ruas cheias de gente, fez-me lembrar a Gran Via. De facto a sensação que fica é que os japoneses (a par de nuetros hermanos) têm por habito comer fora, e estar fora, diga-se de passagem com alguma razão de ser, dado que as casa não têm espaço para albergar visitas, e não existe o conceito ocidental da casa como sinal de “status quo”, exceptuando o andar que ocupamos num arranha céus.
A economia
Acho errado pensar-se que o Japão está em recessão (felizmente existem alguns analistas financeiros achar o mesmo), mas depois de ter demonstrações como as que presenciei, onde os japoneses compravam furiosamente tudo e mais alguma coisa, e as lojas super abundavam de pessoas, prova que apesar de não terem crescimento, continuam a gastar que nem uns loucos. Os preços, esses não estarão longe dos praticados em Portugal.
As roupas são um fenómeno interessante. Na procura incessante de ser diferente, penso que no Japão existem vagas sucessivas de modas irreverentes que não habitam apenas nos filmes de ficção, mas nos passeios de rua também. As gerações mais novas vêm equipadas com os kits mais avangard. A Maria fez inclusive questão de entrar numa loja de 7 andares, que apenas se dedicava a gadgets e roupa da nova moda. É literalmente impossível pensar-se que o mundo não vai acabar depois de uma incursão destas.
A refeição normal (informações apontam para 170 estrelas michellin apenas em Tokyo, não estou por tal a contar com este estilo de possibilidade que se faz pagar cara em qualquer lugar no mundo) andará à volta de 10 a 15 euros, mas como a Maria provou-se ser uma adepta do hotsakée (que até era barato) o preço disparava normalmente para os 25 euros.
Nos transportes públicos temos alguma discrepância. Dou o exemplo da Maria que gasta 250 euros por mês, e eu que gastei 150 euros em 10 dias. A qualidade destes não pode ser posta em causa, já que cobrem meticulosamente a cidade e arredores por inteiro e têm aquecedor.
A fisionomia dos Japoneses
A fisionomia dos japoneses é intrigante. Os esforços do governo japonês são notórios dado que nos dias de hoje, ao andar no metropolitano em Tokyo não vi muitas carecas. Por dois motivos, primeiro porque de há 20 anos para cá, o leite foi inserido na dieta dos japoneses, e os resultados são visíveis. Os homens serão praticamente da mesma estatura que os lisboetas (digo lisboetas porque no porto ainda consigo ver carecas). O segundo motivo é este (e desta feita não existe exagero algum) as cabeleiras deles são espantosas. Tanto nos homens como nas mulheres. Vi muito pouco os atingidos pelo dilema da calvice.
É habitual nos homens terem umas cabeças enormes, e normalmente são feios como trovões (autênticas caraças de samurai só que feitas de carne e osso).
Já as nipónicas (não que tenha reparado pessoalmente, mas porque fui chamado atenção pela Maria) são extremamente delicadas. A aparência desempenha um importante cartão de apresentação em qualquer sítio civilizado, mas especialmente aqui. Deste modo estão usualmente bem maquilhadas, e bem vestidas. Mulher que é mulher no Japão, usa saia, e é comum estarem mesmo de mini-saia, ainda que se tratasse de ser pino do Inverno (a Maria viu algumas que tinham as pernas queimadas pelo frio… eu constatei o facto).
A religiosidade nipónica
Eu vou tentar dar ao tema a deferência que merece. Não estou no entanto muito convencido que os japoneses o façam. Na teoria sente-se todo um peso que a tradição religiosa conquistou, mas na prática o cenário é outro. Todos os santuários que visitámos primavam por obter a sua fonte de rendimento através de uma fonte mágica, um sino abençoado, uma pedra milagrosa, um trajecto revelador de sabedoria, uma árvore que dá desejos, um bolinho que dá saúde, uma dezena que cura as frieiras e um não acabar de procissão com uma multidão que se esmagava para ter lugar privilegiado em frente a umas rochas que têm de ser alvejadas com moedas para que todos os sonhos se realizem. Tudo a troco de uma moedinha. Existe ainda por cima um tipo de moeda que é mais dada a ter resposta para a súplica que é feita (são mesmo espertos).
O único perigo de resto é não cruzar uma linha de fogo de moedas.
A beleza dos templos não pode ser posta em causa. Os japoneses são exímios construtores em madeira, e os templos são o expoente desta arte que não recorre a pregos ou parafusos, mas consiste em jogos de encaixe. Em Nara estivemos no templo de Todaiji, uma estrutura verdadeiramente impressionante, que depois viemos a descobrir ser a maior de madeira no mundo.
Os jardins Zen, são transcendentes mas conseguir reflectir neles, já não deve ser possível há já alguns anos, dada a afluência (na sua grande maioria de japoneses). Ainda penso para mim que talvez gravem na sua memória aquela visão apaziguadora, e a meditação fica para trabalho de casa. Kyoto está recheado de templos e jardins Zen incríveis dos quais destaco Kinkakuji, Ginkakuji e Ryoanji.
Fátima é aprendiz de feiticeiro em artefactos e produtos religiosos. Todos os santuários tinham a sua própria marca de “lucky charms” que existem para todas as sortes e maleitas.
Apesar da popularidade, a visita aos templos é um must.
Epílogo
Para acabar esta pequena crónica, gostava de frisar que o Japão é um itinerário turístico excelente, não só pela segurança que oferece, como pela experiência que é viver alguns anos à nossa frente, num ambiente que apesar de muito ocidentalizado tem raízes e tradições únicas.
É pena ser tão longe de nós.
ps: o blogger estã com problemas e não consigo adicionar fotografias... vou acrescentando imagens dos lugares mencionados pelo João aos poucos, senão daqui não saio...
Música tradicional
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Era uma vez SBA...
Depois de tanto tempo sem dar notícias, o mínimo que posso fazer, antes de mais, é começar a actualizar as novidades, e a primeira é esta.
Bastante antes do previsto, decidi acabar o estágio.
Vários motivos para justificar esta escolha. Primeiro, o trabalho que lá fazia (maquetes essencialmente) foi interessante nos primeiros tempos, não tanto pelo trabalho em si, mas para ir conhecendo o “staff” efectivo para tentar perceber o funcionamento do atelier – e quantas coisas se descobrem!-, meter o nariz em vários projectos, aprender a fazer maquetes decentes uma vez por todas (!!!), etc etc. Mas após esta primeira fase de descoberta, ficar até às onze da noite todos os dias a fazer maquetes, começa a ser um tanto frustrante...
Segundo, realizei que daí a 3 meses me ia embora, ainda tinha uma tese por escrever, muitas viagens por fazer, certas áreas de Tokyo ainda por conhecer e visitas parentais a receber! De facto, tinha chegado o tempo em que comparando o que aprendia no atelier com o que aprenderia em viagem, a balança começou a pesar para o lado da viagem. Neste passo, as opções e vontades tornaram-se mais claras, e a vontade de sair do atelier cresceu... No princípio de Janeiro decretei que no fim do mês me iria embora.
No final, não me posso queixar, porque as últimas semanas foram um verdadeiro presente em termos de trabalho: em vez de trabalhar na produção de materiais diversos para o projecto (maquetes, imagens, etc...), tive a sorte de poder trabalhar mais em desenvolvimento de projecto, para uma casa privada.
Foi fantástico, interessantíssimo, aprendi mais do que nos meses passados e... saí em grande e em tempo certo (isto é, antes de me colarem outra vez à mesa de maquetes...)!!
Não que alguma vez ele vá ler isto e ainda menos perceber o que escrevo, mas fica para a posteridade cibernética: obrigada Suzuki-san!
[Foi graças a ele que pude fazer este trabalho... foi lhe passado este projecto de repente mas, estando cheio de trabalho, passou-me a batata quente... Obviamente tudo o que eu desenhava era revisto por ele, mas foi muito giro, pelo trabalho em si claro, mas sobretudo porque tendo ele crescido no Canadá, não houve qualquer tipo de problema a nível de comunicação, e ainda aprendi algumas coisas sobre pormenores no Japão].
Uma questão estranha no atelier é que, quando um dos arquitectos associados se vai embora, não há festa para ninguém – aparentemente os bosses não gostam quando perdem algum elemento da equipa – mas, quando saem estagiários, temos direito a cocktail, presente e discurso ... Deve ser para compensar a inexistência do nosso salário!
Desta vez então, que festarola, fomos 6 estagiários a sair ! Tivemos direito a sushi, a um dos arquitectos cozinhar, cervejas sem fim, vinho ... e ainda presenteei o atelier com um belo vinho do Porto, que naturalmente adoraram e choravam por mais !
Um dos arquitectos até me pedia para, quando regressasse a Portugal, enviar mais vinho para o atelier, com pagamento ao receptor – o chefão !
Depois portanto deste cocktail, outro facto inédito surgiu: conseguimos arrastar mais de metade do staff a sair do atelier a horas decentes (9 da noite), para virem connosco festejar ao Karaoke!
Que diversão .... passo a explicar: a maravilha do karaoke, pelo menos cá no Japão, é que, passados 20 minutos e uma cerveja, até o mais tímido agarra no microfone e dá largas à garganta! Logo, é uma noite altamente interactiva - em que tudo se junta para cantar, conhecendo-se bem ou não - e divertida. Tendo ali staff então, conseguimos algumas performances nipónicas.
Ainda por cima, karaoke onde vamos fica situado num pequeno bairro extremamente pacato, e não se trata de um karaoke dos tempos modernos, não não... É sim um “old style karaoke”, que em vez de serem as salas privadas dos complexos modernos, é um simples bar... com um super sistema de karaoke! Este ainda tem de especial que veio conservado desde os anos oitenta, com veludo castanho nas paredes, dourado no balcão, mesas em plástico marmoereado.... e clientela local, que leva muito a sério a tarefa de cantar num karaoke! Estes, depois do espanto de verem um bando de estrangeiros ali enfiados, mais parece que nos querem ver dali para fora, pois nós só gozamos a cantar, fazemos tudo por cantar mais alto que o vizinho e a afinação é a menor das preocupações... Confesso que nos pareceu, numa das últimas sessões, aplaudiram valentemente apenas quando... perceberam que nos íamos embora!
Para perceberem do que falo, o melhor mesmo é verem estes vídeos .... não ponham o volume muito alto, para bem dos vossos tímpanos !!
It's alive!
VOLTEI !!
De facto já era mais do que tempo para ressuscitar este blog. Desta vez não há grandes desculpas quanto à minha ausência...
Apenas um conjunto de pequenos factores: a vinda do João, que me descolou do computador durante duas semanas, trabalho intenso no atelier e, claro, quando se perde o ritmo à escrita, vem preguiça... “Amanhã escrevo” “Escrevo quando voltar daquela visita” “Escrevo depois daquela dita festa”. Os dias vão passando, e nada se escreve ... até ao belo dia que de repente volto a abrir o blog para mostrar uma fotografia a um amigo e ... choque! Já não escrevo há mais de um mês... que vergonha!
Ainda há outra questão: passado este tempo, certas características do dia a dia já entraram no mundo das imagens quotidianas – quase – normais.
Um senhor deitado no comboio ? Normal.
Repetir 40 vezes “nihon-go wakarimasen” [não percebo japonês] e levantar os ombros, de olhos bem abertos com ar de vítima, enquanto a senhora da lavandaria continuar a falar comigo durante 5 minutos em Japonês com um ar muito entendido... normal.
Mas vou fazer os possíveis para manter o meu espírito nipónico ainda inocente, para vos mostrar algumas da peculiaridades deste país longínquo...
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
The sushi train (sushi densha wa des)
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
Daft Punk
Para festejar mais uma vez o fim do projecto, fui domingo ao concerto de Daft Punk (para quem não conhece ... visite http://pt.wikipedia.org/wiki/Daft_Punk ).
E QUE CONCERTASSO!!! Absolutamente fantástico, tanto em termos de música (que obviamente gosto muitíssimo), como de espectáculo de luzes. Se num futuro próximo os poderem ver, mesmo que não gostem de música electrónica, ponham uns valentes tampões nos ouvidos e vão, só para ver as luzes ...
Mas para além da qualidade do concerto, foi também extraordinário assistir a um concerto destes aqui.
De facto, nunca tinha viso japoneses loucos. Corrijo: loucos são muitos (hehe) mas nunca tinha vistos Japoneses em manifestação tão efusiva de delírio.
Nos nossos concertos, muitos estão a assistir tranquilamente de mão nos bolsos, outros abanam um pouco mais e outros, mas menos estão histéricos. Aqui, TODOS estavam histéricos. E percebe-se, não só o concerto foi excelente, mas a actuação dos Daft Punk tem tudo a ver com o Japão contemporâneo: vêm mascarados com uns fatos e capacetes (remetendo ao imaginário bizarro que hoje se vive no Japão ... noutra altura vos falarei mais sobre isto), com um cenário incrível onde as mudanças de luzes geravam reacções no público quase tão fortes quando começava uma música mais conhecida. Com tantas luzes que esta cidade tem, poder-se ia pensar que neste concerto não teriam tanto impacto nos Japoneses, mas antes pelo contrário...
Diria que seria um mundo totalmente diferente se não fosse um pequeno pormenor ... quando começavam as músicas mais conhecidas (com especial ênfase no “One more time”), como bons Japoneses que são, quando é para saltar, todos (e digo todos) saltam ao mesmo tempo.
Imaginem uma sala ligeiramente maior que o pavilhão Atlântico em que tudo salta ao mesmo tempo ... acho que desviámos ligeiramente o eixo da terra....
Tanto falo em luzes que o melhor mesmo é verem as fotografias e os vídeos... se bem que pouco reflectem o valor do concerto!!
Atenção com o som dos vídeos... recomendo que ponham muito baixinho porque filmei com o telemóvel destorceu parte do som...
E vejam o terceiro filme até ao fim, para assistirem a uma pequena demonstração de loucura!
Projecto e aula de cultura
Voltei !!
Como tinha dito anteriormente, a minha ausência deveu-se a uma entrega de projecto. Felizmente já está feita, e cá estou de volta, para contar como tudo se passou ... cá vamos.
- APRESENTAÇÃO
A apresentação era a do famoso projecto de Delirious Suburb ... o tal que não me apetecia muito fazer, que continuou a não me apetecer muito fazer mas que ... até correu muitíssimo bem, bem melhor do que eu estava à espera !
As apresentações seguiram a regra habitual tanto das aulas como de qualquer tentativa de comunicação com Japoneses : em Japonês.
Obviamente apenas percebi dos projectos dos Japoneses o que mostravam em imagem e, para ser justa, mais algumas palavras que um simpático colega nos ia traduzindo...
Chegando à minha apresentação (e à do Jan, o famoso belga), pediram-nos para falar devagar, claro. E, para quem me conhece, bem ficaram admirados por saber que ... nunca falei tão devagar na minha vida ! hehe
Mas ainda bem, porque tornou a apresentação e o projecto bem mais inteligíveis, sobretudo para esta audiência.
Quanto aos comentários, esses foram-me dirigidos a toda a velocidade e, sem meias medidas ... em japonês. Nos primeiros tempos só conseguia decifrar as seguintes palavras: conceptô, kenchiku, sugoi, que significam: conceito, arquitectura, e “great”, e que repetidamente iam sendo proferidas. (podem sentir o meu ego a crescer...)
Enquanto o júri falava e gesticulava em frente ao meu projecto, eu lá ia sorrindo com um ar meio aflito de “certo, percebo que deve estar a correr bem mas .... alguém se importa de traduzir ?!”, enquanto suplicava o Professor Ando com o olhar, para que me salvasse dessa situação.
Finalmente o efusivo membro do Júri - que pouco fala inglês mas que tantos “sugoi” dizia - calou-se, deixando espaço para que os professores, que falavam inglês, se manifestassem e confirmassem que as críticas gerais tinham sido positivas (poupo-vos os pormenores...), tanto para mim como para o Jan, e ainda recebemos umas palmadas nas cotas com um niponérimo sotaque “gud jobu” (para quem não tenha percebido: good job...).
- O FESTEJO OU “A AULA DE CULTURA”
A seguir à apresentação, por alguma razão que não percebi acabámos por ficar só o belga, eu e o Professor Ando (que nunca diz não a um festejo e a uma bebida... é de facto fascinante, este senhor, sem ser um típico alcoólico, tem sempre como critério de escolha de restaurantes se é possível beber uma cerveja ou não e quando temos algum evento, esse evento terminarã sempre com uma “drinking party”...).
Neste panorama, fomos os três para um dos antigos bairros de Tokyo, Asakusa, para um pequeno festejo...
Passámos as avenidas principais para entrar nas “backstreets” de Tokyo, que são absolutamente fascinantes por parecer que de repente, depois dos edifícios enormes, largas avenidas e néons e luzes publicitárias, entramos noutro mundo.
De facto, nestas ruas secundárias, entramos numa escala radicalmente diferente, com ruas sinuosas e casas pequenas, lanternins tradicionais à porta dos restaurantes, portas deslizantes em papel, restaurantes e bares locais que fogem às mil cadeias de se vêm proliferar por Tokyo.
Neste cenário, entrámos na isakaya (tasca) mais cheia (bom indicador) e lá nos sentámos no tatami, ou seja de meias e de perna cruzada com o rabo no chão. Ah pois. Não me perguntem como é que conseguem ficar horas assim a divertirem se... eu vou me habituando, mas parte da diversão que tenho neste tipo de sítios é canalizada para esquecer as dores com que fico nas costas e nas pernas dormentes !!!
E do que consiste a “drinking party japanese style” ? De sake, muito sake (para mim quente de preferência ... tenho a dizer que é óptimo!) e muita comida a acompanhar. Mas como qualquer refeição japonesa, não são pratos consistentes, mas uma sucessão de pequenos aperitivos e sushi ou sashimi.
Sabendo que para o Ando estas festas são para o Jan e para mim “aulas de cultura”, tivemos direito ao “nível intermédio” que consistia em aperitivos um pouco ais bizarros que o habitual, como por exemplo pele de peixe balão e konyaku (gelatina de batata)... que eram ambos bastante bons.
Depois de umas valentes 2 horas sentados nos chão em animada cavaqueira e conversas sobre cultura japonesa, fomos literalmente expulsos da tasca que estava a fechar. Não contente com este facto, ao caminharmos para a estação para voltar para casa, o Ando decidiu que ainda tínhamos tempo para mais uma cerveja, olha para o lado, vê um pequeno bar e diz, “is this good enough for you? it’s good enough for me”.
E o que era ? Um tipo de bar que ainda se vê bastante nestas ditas ruas secundárias: São micro bares, onde apenas cabem 2 a 4 pessoas, criados pelos donos há 30 anos atrás para servir eternamente os mesmos 2 a 4 clientes. Imaginem a cara da dona e dos 2 clientes habituais quando lhe entram pelo estabelecimento a dentro 3 estranhos, 2 dos quais estrangeiros...
Enfim, este fim de noite complementou, e de que maneira, esta nossa aula de cultura: tanto pela descoberta do micro bar, pelas conversas com os dois clientes que já lá estavam mas, acima de tudo - e sabendo que qualquer bar japonês que se preze tem o seu próprio sistema de karaoke - pela demonstração de cantoria pela dona do bar e de um dos clientes, que depois nos incentivaram a cantar também... que festa !
O Ando que jurava a pés juntos que não cantava em karaokes não resistiu a pegar no microfone. Deve lhes correr no sangue...
o Jan e o Ando em grandes cantorias !
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
RETIRO DE TRABALHO
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
Kanji
Ando Lab Party
Vou recordando eventos à medida que tenho tempo, claro, mas também à medida que me apetece falar neles... como para os deixar amadurecer um pouco talvez, ou poder acrescentar algumas considerações, ou juntar num só relato vários episódios.
Agora com o meu novo melhor amigo (o Mac), que às vezes vem comigo para o atelier, torna-se bastante mais fácil ir escrevendo durante o meu tempo de commuter... a minha leitura é que, coitada, vai levar uma valente talhadela...
O evento que agora vos apresento passou-se na semana passada, sexta-feira. Por coincidência, ou por fruto da minha vida tripartida Tokyoita (Chiba, Tokyo, Atelier), numa mesma noite tinha três eventos: festa no atelier, para a despedida de um que acabou de ser colocado no atelier Ban de Paris ; festa de chegada a Tokyo dos Ausmips de Fukuoka (cidade noutra ilha mais a Sul), nomeadamente do Sebastien, meu outro grande amigo que veio também da faculdade de Lisboa e finalmente, uma Ando-lab Party, em honra dos anos do professor Ando, de mais dois alunos e de mais outros quantos acontecimentos que agruparam na mesma festa.
Regra de honra posta em prática neste caso, a do maior respeito, e para Chiba me dirigi.
A festa, marcada para as 5 da tarde, na faculdade, constava de um jantar, feito ali mesmo pelos alunos – já referi em tempos que uma das salas tem uma cozinha improvisada -, com os alunos do laboratório, o famoso professor Ando e dois aliens, o belga e eu.
Continuo a referir-me a nós como aliens porque apesar de sermos já bastante amigos de alguns alunos japoneses, dentro do contexto geral do departamento de arquitectura, somos um fenómeno. Não pensem que é falta de humildade o que aqui escrevo, mas às vezes é assim mesmo que o sinto... fenómeno não por feitos realizados, mas simplesmente por sermos uma espécie de atracção.
De facto, por várias vezes já me foram apresentadas pessoas com o seguinte comentário: “they will come sometimes to talk to you”. Certo...
Tenho vindo a perceber que isto tem dois motivos: o primeiro, o facto de sermos europeus e trazermos todo um leque de conhecimentos diferentes, sobre os quais os japoneses estão genuinamente interessados. Segundo, somos um óptimo meio para eles treinarem o Inglês.
Na festa quase que vinham falar connosco à vez. Fiquei deliciada... não só é uma demonstração perfeita de acolhimento, como uma diversão pegada, para nós e para eles.
Ao lado do Jan, à direita, o Junichi, que esteve em Lisboa, e ao meu lado, o famoso Mr. Ando, na festa
Confesso que é uma massagem ao ego extraordinária contar coisas várias, sobre Portugal, Europa... e ter pessoas a ouvir que realmente estão a ouvir e a absorver.
Exemplo: começámos a falar em torres, um dos alunos japoneses que tinha estado em Lisboa falou na Torre de Belém, em jeito de brincadeira, pelo tamanho comparado com os arranha-céus...
Eis se não quando dou por mim a dar uma pequena aula sobre Lisboa, Belém, a Torre, os Jerónimos ... apenas a tentar dar algumas luzes sobre o nosso papel nos descobrimentos e o sentido que tinham para Portugal.
Já estava contente por ter uma audiência tão atenta quando, vejo a cereja sobre o bolo: um dos alunos (de arquitectura, e momentaneamente meu aluno também...) estava a tirar apontamentos !!!
Que maravilha...
O quadro e o aluno atento ....
Outra característica destes meus hóspedes é serem altamente fofoqueiros, de tal forma que qualquer informação é rapidamente circulada pelos restantes.
Um dos episódios que já me ocorreu foi de ter uma vez perguntado a um deles se conhecia um grupo chamado “yura yura teikoku”, que tinha ouvido na Fnac cá do sítio e tinha-me parecido bom. Na festa, tenho de repente um grupo de semi góticos com um ar um tanto duvidoso, a virem ter comigo com um ar feliz e dizer
“You like Yura yura teikoku? We are yura yura teikoku fans!”
Imaginem o meu espanto ... que ando eu a ouvir ?!! E que andam eles por aí a contar...!
De resto, a festa constou de (muito) álcool, muita comida (constantemente a servirem-me mais...) e muita diversão, que culminou com a saída nocturna... para o karaoke!
Não sei se sabem, mas o karaoke nasceu no Japão, e é o divertimento predilecto dos Japoneses. Em qualquer terriola, rua ou avenida existe um karaoke. Em Tokyo então vêem-se prédios atrás de prédios SÓ para karaoke. Melhor : já me constou numa das minhas aulas que há companhias imobiliárias a desenvolverem projectos onde, da mesma maneira que para nós um “extra” nos novos condomínios são os ginásios, para eles é ... uma sala de karaoke.
E do que consta? Várias salinhas, com capacidade para 2 a 12 pessoas (acho que há umas maiores mas ainda não as vi), com um ecrã gigante, 2 micros, e acessórios musicais – tipo marracas.
E os Japoneses são tão loucos por isto que nesta saída, em que deveríamos ser uma dezena, comecei a estranhar ao fim de um tempo por sermos só 5 dentro da sala. Quando perguntei onde estavam os restantes obtive a seguinte resposta:
“estão na sala do lado ... 10 numa só sala canta-se pouco”.
Ah bom... visto assim, têm toda a razão! E começo a achar que as salas maiores são só para estrangeiros... como nós.
Quem me conhece sabe bem que canto tão bem quanto ... uma cana rachada. Mas sim, cantei que me fartei!
Não se preocupem, não rompi os tímpanos a ninguém... estas máquinas de Karaoke são inteligentes: não só costumam estar com um volume altíssimo, de maneira que ouve-se mais o instrumental que a própria voz, como transformam a nossa voz! Dão lhe assim um certo eco, com um ar mais místico... hehe
E o que se canta ? TUDO. Até Madredeus lá encontrei... no meu caso opto pelas clássicas dos anos 80, que serão sempre mais fáceis! Os Japoneses escolhem, claro, músicas japonesas (têm um repertório vastíssimo!) mas também se aventuram a músicas em inglês, que obviamente dá direito a um espectáculo inédito.
Palavras inventadas, atitude rock star nipónico-ocidental... um must!
Performance multi-cultural
E agora confesso... todos estes meus conhecimentos derivam do facto de já ter ido outra vez ao Karaoke, desta vez com mais internacionais... e aqui têm a prova do meu desempenho!
(eu, Nuno -Portugal - e Freya - Belgica )
sábado, 17 de novembro de 2007
A maquete sem fim
Primeiro relato da minha vida de estagiária.
No primeiro dia de trabalho fui colocada na equipa de um concurso para um projecto para uma universidade, Keio. E esta não é uma universidade qualquer, é sim a universidade onde o meu boss ensina. Escusado dizer que a pressão era grande...
Para mim a pressão era outra. Não tanto o ganhar o concurso – isso é lá com eles – mas por ser a primeira vez que me deparo com um desafio tão tremendo quanto ... fazer uma maquete perfeita !!
Como disse noutro post, o meu talento de maquetista é um tanto duvidoso... a minha lógica é a das maquetes de estudo, para se ESTUDAR o que se pretende fazer, logo uma maquete deve ser transformável, remodelável, cortável, recolável etc etc. Para quem não faz maquetes, o resultado destas maquetes acaba por ser, em geral e especialmente no meu caso, algo bastante tosco, mas que cumpre o seu objectivo.
Agora nos ateliers Japoneses, a situação é bem diferente. Qualquer maquete, seja de estudo, final, de apresentação ao cliente ou final, tem de ser absolutamente PERFEITA. Não há marcas de cola, o cartão está sempre imaculadamente branco (o segredo da limpeza e da cola está num spray que não existe/não usamos em Portugal, e que limpa tudo. Até as marcas de tinta e cola na roupa), as paredes têm a espessura certa (não há simplificações: juntam-se os diferentes tipos de cartão que forem necessários, mas a maquete será igual ao real. IGUAL.), tal como nas lajes e, supra-sumo do pormenor, quando se juntam vários materiais para criar uma dada espessura, cola-se um papel à volta para não se verem as várias camadas.
Ah, já me esquecia do pormenor diabólico... à escala 1.200, todas as maquetes têm mobília. Imaginem uma mesa e cadeiras com 4 milímetros de altura... Graças a Deus ainda não tive de fazer mobília, senão aí é que ficava mesmo de olhos em bico!!
E das maquetes a 1.50 nem se falam ... levam televisões, materiais, quadros nas paredes, maçanetas nas portas ... uma arquitectura dos pequeninos !!
Sei bem que não sou uma autoridade para poder criticar, mas parece-me razoável dizer que são LOUCOS. E nem falo da eficiência/vantagem das maquetes com tanto pormenor, isto já é outro debate, com o qual não vos vou chatear agora.
Neste contexto, não admira então que estas maquetes sejam intermináveis.
Voltando um pouco ao tal Projecto para concurso.
Tivemos de fazer umas maquetes de estudo, mas a grande questão é que rapidamente passámos para a maquete final, independentemente de saber se se passava a primeira fase do concurso, porque os prazos de entrega entre fases eram muito curtos.
Logo, mais vale prevenir a atacar já os documentos (maquete) da fase seguinte – sabendo que na primeira fase a maquete não seria usada.
Nisto, após duas semanas desta minha primeira prova de esforço, onde tive de aprender a dominar novas máquinas e tudo, já estava a começar a ver algumas melhorias na minha qualidade de maquetista e ficar finalmente satisfeita com o que fazia.
A data da revelação dos resultados do concurso aproximava-se (quarta-feira), tal como a data da entrega da segunda fase (sexta-feira)... e consequentemente o stress também crescia, alguns dos “staff” começavam a fazer noitadas (noitadas são até às 5/6 da manhã, já que o horário normal é até à meia-noite...).
No auge da pressão, quarta-feira, sabe-se o resultado... não passámos. Ups... Melão.
Staff desiludido, Ban aparentemente a não mostrar grande emoção e estagiários frustrados por estarem a trabalhar para nada... no meu caso foi um sentimento misto de trabalho em vão versus ter de me matar mais dois dias caso tivéssemos passado... acrescentando o facto de agora não ter problema de consciência absolutamente nenhum por ter algumas partes da maquete menos nipónicas e bem mais toscas !
O que disse ao staff com quem mais trabalhava (que me pedia desculpa a mim por não termos passado... estranho...) foi que, on the bright side, foi o meu tempo de treino! Nada se perde, tudo se ganha...
Sobretudo para mim, obviamente não só em termos de talento de maquetista, mas sobretudo por perceber o sistema das grandes competições, o tempo investido, a preparação da apresentação... e como gerir a desfeita: atacar o próximo projecto.
Na meia hora a seguir à notícia metade dos estagiários já estavam a ajudar noutro projecto com entrega iminente, e eu recolocada para rematar mais uma entrega de concurso, mas desta vez com trabalho a computador (uff... sinceramente acho que estava a ficar com o dedo indicador mais musculado de fazer força no x-acto).
A partir da próxima semana tenho a sorte de trabalhar num projecto (já adjudicado) desde o desenho inicial...
Ah, a famosa maquete, essa, ficou duplamente sem fim!
Na sala de maquetes, com ar de fim de festa, e a famosa maquete ainda aos pedaços
Uma sala de aulas...
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
Um extra ao post anterior
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
Commuter Life
Entrei no mundo da Apple. De facto, o meu velho computador estava a dar sinais de fim de vida e, após um bom estudo de mercado e a constatação de uma diferença de preço significativa, optei então por tornar-me uma mac user. MacBook preto.
E que maravilhoso mundo novo! Estou conquistada... pelo design (é preto, 13 polegadas widescreen .... lindo), pelo sistema ... tudo. E sinceramente arranjar programas não é assim tão complicado...
Feliz e contente estou eu portanto, com o meu novo “friend for life” no colo – palavras de uma do atelier, utilizadora há já alguns anos.
Sim, no colo, porque não estou em casa, mas no comboio.
Parece-me que atingi o estado derradeiro de vida no comboio... vir de computador atrás e trabalhar nele. Se estivesse em Portugal, provavelmente não me aventurava a tal coisa. Teria pessoas a olhar de lado “olha esta a exibir-se”, e outros eventualmente a pensar como me assaltar... E obviamente, outros tantos a lerem o que escrevo.
Mas aqui, onde todos exibem algum sinal de riqueza – em equipamento electrónico ou em acessórios Louis Vuitton e companhia - e onde a segurança é extrema – poderia adormecer profundamente com o computador ao colo que ninguém me levaria o portátil – estou confortável e segura a escrever-vos.
Por acaso os japoneses até são bastante fofoqueiros e cuscos, de maneira que o senhor sentado ao meu lado esteja provavelmente a ler o que escrevo (a senhora do outro lado dorme...), mas a probabilidade de perceber o que escrevo é bastante remota.
Estando no comboio, aproveito a ocasião para escrever sobre a minha experiência de “commuter” nestes quase dois meses (já!!).
Primeiro, o próprio termo de “commuter”, ou seja “a regular journey of some distance to and from one's place of work.”.
(entretanto mudei de linha ... estou agora na Yamanote, a linha circular de Tokyo... e como apanhei numa boa estação, está praticamente vazio e tive lugar para me sentar e ... continuar a escrever)
As viagens de comboio têm se demonstrado como um pequeno observatório da sociedade japonesa... assim como um pequeno tubo de ensaio, no qual também me encontro – sentido por vezes os seus efeitos – mas onde permaneço, apesar de tudo, uma observadora. Por pontos, as minhas primeiras deduções:
1º. Como provavelmente já sabem, a cultura japonesa é extremamente ascética na demonstração de afectos, no toque... não se dão abraços, não se dão beijinhos e só quando há já alguma relação de amizade se põe uma mão no ombro, se dá uma palmada nas costas ... etc. (dada a evolução da sociedade, começam a ver-se casais com alguma demonstração de afecto ... mão dada, cabeça no ombro, etc, mas raros são os que vão para alem disso)
No metro/comboio, todos estes pudores desaparecem. Andamos colados, a respirar no pescoço do vizinho, os corpos em conjunto movimentam-se conforme o baloiçar da carruagem – em certas situações quase se perde o equilíbrio, mas sempre em silêncio ... fosse em Lisboa estava tudo aos berros....
**actualização temporal: 12 horas depois, no meu quarto ... queria ter continuado a escrever na viagem de regresso, mas estava tão cheio que foi impossível.
Esta viagem de regresso foi mais um exemplo de “sardinhite”. Estava praticamente ao colo de um que estava sentado (sortudo).**
2. O comboio como um conjunto de bolhas pessoais.
Explico: no metro, tudo se faz: maquilhar-se, escrever no telemóvel, ler jornal, ler livros, jogar playstation (versão portátil), escrever no computador – não sou a única - e claro, dormir.
Só há duas coisas que não convém fazer: comer e falar ao telemóvel. Comer ainda se percebe, mas agora falar ao telemóvel confesso que não percebo ... ainda por cima os telemóveis andam sempre em modo silêncio (se tocar em alto e bom som olha tudo). Se estivesse com alguém ao meu lado à conversa, faria o mesmo barulho... Nestes dois pontos, comer e falar ao telemóvel, assumo a minha posição de estrangeira e quebro as regras.
Todas estas regras subliminares ao uso do metro remetem à sua principal característica: a total ausência de relação com o próximo. Posto de outra forma, é como se cada pessoa saísse de casa com uma bolha à volta do seu corpo, transportasse essa bolha para dentro do metro e, protegida dentro dela, continuasse a sua vida pessoal, apesar de rodeada por uma quantidade de incógnitos.
Talvez seja exactamente este anonimato que permita estar tão abstraído do que (dos que) nos rodeia...
3. O exemplo mais característico de viver na sua maior intimidade apesar da marabunta que nos rodeia: o dormir.
Já repararam como o dormir é a anulação completa do controlo sobre o nosso corpo e sentidos?
Ao dormir ressona-se, abre-se a boca, baba-se, cai-se para o lado (para cima do ombro do vizinho, que por respeito ou pela regra implícita de não entrar na bolha pessoal do próximo, não o afasta). Que espectáculo humano !!
Confesso que já me aconteceu. Sim, já adormeci profundamente no metro, ao ponto de deixar passar a estação. Fui niponizada...
E sempre que acordei, sentia-me estranha, exactamente por ter perdido o controlo da situação, ter passado tempo sem eu dar por ele. Será que ressonei? Abri a boca? Incomodei o vizinho?
Tenho de me conformar: dentro das regras implícitas da sociedade japonesa, seja qual tenha sido o meu momento de Morfeu, nada disto tem importância...
Em jeito de nota final, e abertura a um post em preparação:
a vida de comboio é característica de um traço fundamental da sociedade japonesa:
as contradições.
E agora uma imagem perfeitamente única...
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
Ando lab
http://ando-lab.ta.chiba-u.jp/ando/index.htm
e para os preguiçosos aqui está a fotografia ...
Explico o termo "ando lab": Nas faculdades de cá misturam os alunos dos vários anos num só " laboratório", dirigido por um professor, no meu caso o "famoso" Masao Ando, e que vai orientando tanto os projectos como as teses dos vários alunos.
Em termos espaciais, um laboratório corresponde a um conjunto de salas: uma de aulas, um escritório - com papeis e dossiers até ao tecto .. nunca vi coisa assim!!- e várias salas para os alunos, onde cada um tem a sua mesa, umas mesas maiores para maquetes, uma cozinha improvisada e um "lounge" também improvisado. Note-se que de noite todos estes espaços se transformam em dormitórios improvisados !! Todos os alunos guardam na faculdade um saco de cama, toalha, roupa extra, escova de dentes... Acho que já tinha explicado uma vez que os alunos cá vivem na faculdade... literalmente.
Descobri no computador uma fotografia que ainda não tinha publicado, não da minha faculdade, mas do campus da Universidade de Tokyo, em Tokyo mesmo. Qualquer parecença com um campo de refugiados é mera ilusão !
bug busters
Chegando ao meu quarto/casa, abro a porta e vejo um papel no chão, que não podia ter sido posto por debaixo da porta, porque estava em cima do degrau, um metro mais à frente.
Noutro país qualquer, o primeiro pensamento seria "Assaltaram-me o quarto e deixaram um papel fora do sítio". Mas sendo o Japão um dos lugares mais seguros onde já estive, o único pensamento foi "olha que estranho, um papel no chão".
Acendo a luz, pego no papel e leio :
それらを使用する前に燻蒸が皿を洗浄した後。
あなた自身によって昆虫の残物を投げなさい
Today we have sprayed the rooms with insecticides.
After the fumigation please wash the dishes before you use them.
Please throw away the remains of insects by yourself."
- O quê ?!? Entraram-me no quarto ???
prova de que o quarto está bem limpo!
vou snifar insecticida a noite toda ?!?
- e a minha roupa ??
- e os saquinhos de chá que
não estavam hermeticamente fechados ?
vou passar a tomar chá de insecticida ?!?
Está decido e executado: loiça toda lavada, chá para o lixo, e hoje durmo no saco de cama.
O que vale é que metade da roupa estava a secar na varanda... (vou acreditar que não atacaram a varanda, que os bichos não rastejaram para fora para cima da minha roupa... senão dou em louca!!).
Imaginem o meu espanto final quando, depois de me fumigarem o quarto, sem qualquer consideração pelo que cá estaria dentro e sem qualquer pré-aviso, a única prova da presença de pessoas no meu quarto, para além do famoso papel no chão, e como prova de que estou no país tecnológico, a única prevenção tomada pelos meus "bug-busters" foi ... um plástico gigante por cima do computador !!
eu não como nem respiro computadores !!!!
Falha momentânea
( e porventura mais algum leitor que tenha descoberto este blogue...)
Não imaginam o contente que fico por saber que andam a seguir o blogue atentamente e que, se por acaso me ausento durante mais algum tempo, tenho mails a pedir mais notícias!
Escrever no blogue dá-me imenso gozo e é uma forma de manter algum registo desta aventura. Mas saber que é acompanhado dá-lhe todo outro sentido...OBRIGADA !!
E facto é que na passada semana não lhe dediquei tempo nenhum. Não por falta de histórias por contar (como verão) mas falta de tempo. Posso estar a viver no futuro (nos vários sentidos da palavra !) mas o tempo aqui não estica. Até parece mais curto.
Entre o estágio (e as suas longas horas), as aulas (com uma entrega à vista), e as minhas 2.30 horas de comboio diárias... sobra pouco tempo para aqui escrever. Confesso também que nesta semana ganhei um pequeno vício... ver "Heroes" por Internet. Não sei se conhecem, se vêem ou não ... mas tem me agarrado todas as noites ao computador, um episódio por dia (sábado de manhã fiz uma pequena maratona de três episódios...).
Antes de fazerem juízos, deixem-me tentar explicar (desculpar ?) o vício: não vejo nem televisão nem um filme no cinema há um mês e meio ... sinto imensa falta de ir ao cinema (cá a maior parte dos filmes são japoneses, os internacionais estreiam tarde e é caro...) e sim, daqueles minutos de couch potatoe sem pensar em nada. Daí que, quando descobri os Heroes... pegou.
Para tentar validar ainda mais um pouco a minha adição, devo dizer que não sou um caso único. Estava no outro dia com um grupo de internacionais e, em 12, 8 estavam também agarrados ao computador para ver esta série... ! É o fenómeno estudante que vive num mini-quarto sem televisão.
Mas agora a adição está cada vez mais controlada e volto a dar mais atenção ao blogue!
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
Shinjuku Station. 23.45

"Serving as the main connecting hub for rail traffic between central Tokyo and its western suburbs on inter-city rail, commuter rail and metro lines, the station was used by an average of 3.31 million people per day in 2006, making it the busiest train station in the world in terms of number of passengers. Including an underground arcade, there are well over 200 exits.
In terms of area, Shinjuku is the second-largest station in the world after Nagoya Station."
in Wikipedia

